A indústria automobilística italiana pode vencer a disputa elétrica se agir com antecedência.

Segundo o diretor-geral da Jameel Motors Italia (Geely e Zeekr), a indústria automobilística italiana está bem posicionada para vencer a competição elétrica se agir com antecedência em vez de se limitar a defender o que já existe. “Para ser competitivo – afirma – é preciso entender antes dos outros o que o mercado exigirá amanhã”. Ele ainda adverte: “Uma visão sólida gera confiança no mercado, e a confiança gera grandes investimentos”.
A carroceria elétrica, em resumo, não é a causa da crise da indústria automobilística italiana, mas pode representar uma oportunidade para revitalizá-la. Contudo, isso depende de o país conseguir olhar além da emergência e criar uma estratégia industrial capaz de durar mais de um mandato legislativo. Essa é a posição de Marco Santucci, gestor com cerca de trinta anos de experiência no setor automotivo, atualmente diretor-geral da Jameel Motors Italia, distribuidora das marcas chinesas Geely e Zeekr. Ele afirma isso ao Vaielettrico, no programa Fuoco Amico dedicado à concorrência chinesa.
Para Santucci, o desafio não consiste em defender a todo custo o modelo industrial existente, mas em se preparar para as mudanças que estão transformando o setor automotivo: eletrificação, software, inteligência artificial, conectividade e segurança. Áreas nas quais, segundo ele, ainda dispomos de competências industriais, tecnológicas e científicas importantes.
“Para sermos competitivos no futuro, é preciso olhar não tanto para o que temos à frente, mas para o que está além da curva”, afirma. E identifica nas baterias, na eletrônica, nos materiais, na pesquisa e nas energias renováveis oportunidades igualmente significativas para o nosso sistema produtivo.
A lição da Espanha: é necessária uma estratégia industrial
A comparação com a Espanha é central no raciocínio do gestor. Nos últimos anos, observa ele, o país ibérico conseguiu atrair investimentos automotivos graças também a uma política industrial de longo prazo e ao desenvolvimento de fontes renováveis. O resultado é uma produção de carros que, segundo os dados citados na entrevista, é quase cinco vezes maior que a italiana.
“A verdadeira condição necessária é uma estratégia nacional que dure mais de uma legislatura”, destaca Santucci. Uma direção clara permitiria também aos grandes grupos internacionais avaliar novos investimentos na Itália, com impactos que envolveriam todo o ecossistema industrial.
O gestor não pede simplesmente que se imponham objetivos às motorizações, mas que se mantenha uma rota reconhecível ao longo do tempo. Na sua opinião, a Europa limitou-se a indicar com bastante antecedência a direção da transição, enquanto a China soube interpretá-la e investir de forma mais rápida. “A China não inventou essa transição para veículos elétricos; ela simplesmente entendeu muito bem a direção para a qual o mundo estava caminhando e investiu antes e mais rapidamente do que outros”.
Acordo Verde e independência energética
Santucci considera a transição elétrica uma questão que vai muito além do meio ambiente. “A transição não é apenas uma questão ambiental, é também uma questão industrial, econômica, mas, acima de tudo, estratégica”, afirma ele. A eletricidade, lembra, pode ser produzida na Europa e na Itália, inclusive por meio de fontes renováveis: reduzir a dependência de combustíveis importados significa, portanto, fortalecer a segurança energética e criar novas oportunidades industriais.
Segundo Santucci, o problema é a incerteza que acompanha as decisões de compra dos motoristas italianos. Incentivos nacionais e regionais, regras locais e limitações diferentes de uma cidade para outra dificultam a escolha do carro e a forma de utilizá-lo.
«Se um cliente não consegue entender qual carro é o melhor para o seu uso, imagine o que ele fará nos próximos 12 meses: adiará a compra». Uma perspectiva estável permitiria, por outro lado, fortalecer a confiança de consumidores e investidores: «Regras coerentes geram confiança no mercado, e a confiança gera grandes investimentos».

Carros chineses, preços mais baixos graças à economia de escala
Diante da vantagem competitiva dos fabricantes chineses, Santucci alerta para não se limitar apenas à questão dos subsídios públicos. A diferença de preço em relação aos modelos europeus, explica ele, decorre principalmente do tamanho do mercado interno, da padronização dos produtos e da velocidade com que as empresas conseguem desenvolver e industrializar novas tecnologias. “A China construiu escala, criou uma cadeia produtiva e uma tecnologia, além de possuir uma velocidade industrial completamente diferente daquela com que operamos nós na Europa”.
O mercado chinês representa cerca de 30 milhões de carros novos vendidos a cada ano, um terço do total mundial. Esses volumes permitem economias de escala difíceis de serem replicadas pelos países europeus individualmente. A isso se soma uma menor variedade de configurações e componentes, o que reduz a complexidade produtiva.
Santucci também alerta para os riscos de uma estratégia baseada exclusivamente em barreiras comerciais. “Um imposto pode desacelerar um concorrente, mas não torna automaticamente mais competitiva a indústria que se deseja proteger”, diz o executivo, citando a experiência dos fabricantes japoneses. Eles foram inicialmente obstaculizados por restrições às importações, mas ainda assim se tornaram protagonistas do mercado global nos anos seguintes. A resposta à concorrência chinesa deve, portanto, ser industrial: investir, desenvolver produtos competitivos e criar sinergias entre os países europeus.
Geely e Zeekr: duas marcas, dois posicionamentos

Na entrevista, Santucci também explica a estratégia das duas marcas, Geely e Zeekr, distribuídas na Itália pela Jameel Moors. O grupo Geely já está presente há tempos na Europa por meio de aquisições e participações, desde a Volvo e a Lotus, passando pela Lynk & Co e pela Polestar, além da participação na Smart e da participação acionária na Mercedes-Benz.
Geely se posiciona no mercado geral, focando em preços acessíveis, segurança, conforto e tecnologia. Já a Zeekr se dirige à faixa premium, com maior atenção ao desempenho, aos materiais e aos recursos tecnológicos.
Ambas as marcas, no entanto, buscam combinar competências globais com uma sensibilidade europeia. A Geely possui também um centro de design em Milão, enquanto a Zeekr conta com uma forte identidade estilística europeia, ligada também ao trabalho realizado em Gotemburgo. Santucci destaca ainda os equipamentos de segurança, as garantias oferecidas pelas duas marcas e a organização europeia de peças de reposição. Elementos que devem ajudar a superar os preconceitos em relação à qualidade dos carros chineses.
A partida decisiva acontece também na assistência
Para conquistar os motoristas italianos, no entanto, não basta oferecer veículos tecnologicamente avançados a preços competitivos. É necessário garantir uma rede comercial e de assistência confiável, capaz de acompanhar o cliente durante toda a vida útil do carro.
Santucci garante que a rede foi construída selecionando concessionárias com experiência, presença territorial e equipe qualificada. A tecnologia, acrescenta ele, também deve ser avaliada com base nos benefícios concretos: «A tecnologia é demais quando não serve para nada. Quando torna o carro mais seguro, mais intuitivo, mais eficiente e menos caro de usar, ela deixa de ser um gadget e passa a ser um valor para o carro».
Prepare-se para o mercado que está por vir, não defenda o que já existe
E conclui: «Ajudar as pessoas a superar o que acham que sabem sobre os produtos chineses e a avaliar o que realmente têm diante delas» é a melhor maneira de mudar a percepção do público. Um desafio comercial para as novas marcas, mas também uma indicação mais ampla para a indústria europeia: para permanecerem competitivas, é preciso se preparar para o mercado que está por vir, e não tentar manter o que já existe.
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