A Europa se prepara para perder até 350.000 empregos no setor automotivo

A indústria automobilística europeia está perdendo empregos em um ritmo muito superior ao que consegue criar novas vagas. De acordo com os dados da associação de fornecedores CLEPA, durante 2024 e 2025 foram anunciados 104.000 empregos a menos na indústria auxiliar europeia, em comparação com apenas 7.000 novas vagas comunicadas em 2025. E o problema pode piorar: a CLEPA estima que até 350.000 empregos podem estar em risco até 2030 se as atuais dificuldades de competitividade persistirem.
A transformação do automóvel europeu está demonstrando que substituir alguns empregos por outros não é tão simples quanto poderia parecer. A eletrificação exige novas especializações relacionadas a baterias, eletrônica, software e engenharia, mas muitas dessas vagas não surgem necessariamente nas mesmas fábricas ou países onde desaparecem os empregos tradicionais. Além disso, os fabricantes e fornecedores europeus enfrentam uma combinação especialmente complicada de custos elevados, menor produção, concorrência chinesa e uma regulamentação cada vez mais rigorosa.
O secretário-geral da CLEPA, Benjamin Krieger, alerta que as perdas de empregos estão avançando muito mais rápido do que o previsto inicialmente. As projeções feitas há alguns anos já indicavam uma redução de vagas de trabalho como consequência da transição para carros elétricos, mas o ritmo observado desde 2024 superou claramente essas estimativas. Ao mesmo tempo, os fornecedores enfrentam dificuldades para encontrar engenheiros e especialistas em software, justamente alguns dos perfis que deveriam ganhar importância durante a transformação da indústria.

O problema tem ainda um segundo aspecto: a Europa está produzindo menos carros. A CLEPA estima que a produção de veículos na União Europeia em 2025 ficou aproximadamente 20% abaixo da de 2019, o que representa uma diferença de cerca de 3,1 milhões de unidades. E as previsões indicam que a produção continuará praticamente estagnada a partir de 2026, o que torna ainda mais difícil manter abertas fábricas e cadeias de fornecedores projetadas para volumes muito maiores.
A situação é especialmente chamativa porque a produção de carros elétricos realmente está crescendo. A CLEPA estima que, em 2025, foram fabricados cerca de 3,3 milhões de carros elétricos na União Europeia, 23% a mais do que no ano anterior, mas esse aumento não conseguiu compensar a queda na produção total. Ou seja, a Europa está fabricando mais carros elétricos em um mercado industrial que, no conjunto, produz menos veículos.
A Alemanha concentra boa parte do problema

A Alemanha é um dos países onde essa situação está se tornando cada vez mais visível. Os últimos dados do Instituto Federal de Estatística alemão mostram que a indústria automobilística encerrou o primeiro semestre de 2026 com 691.500 trabalhadores, 42.300 a menos do que um ano antes. Isso representa uma queda de 5,8% e o nível de emprego mais baixo desde 2005. Entre os fabricantes de automóveis, a redução foi de 6,1%, enquanto entre os fornecedores de peças e acessórios chegou a 7,6%, resultando em 219.500 trabalhadores.
A associação industrial alemã VDA considera a situação especialmente preocupante. Suas últimas previsões indicam que a indústria automobilística alemã pode perder outros 125.000 empregos até 2035, além dos aproximadamente 100.000 postos que já foram extintos desde 2019. No total, a VDA estima que o número de empregos em 2035 poderá estar cerca de 225.000 postos abaixo do nível de 2019.
A organização aponta vários fatores por trás dessa evolução. À menor complexidade de fabricação dos carros elétricos somam-se os altos custos energéticos, os custos trabalhistas, a burocracia e condições industriais que, segundo a VDA, estão fazendo com que uma parte crescente dos novos investimentos seja direcionada para outros países. A transição tecnológica, portanto, não está apenas mudando que tipo de trabalhadores a indústria precisa, mas também onde esses novos postos de trabalho são criados.
A própria VDA acredita que uma maior flexibilidade tecnológica poderia evitar parte das perdas. De acordo com seus cálculos, manter um papel para os híbridos recarregáveis (PHEV), os carros elétricos com extensor de autonomia (EREV) e outras tecnologias poderia contribuir para preservar cerca de 50.000 empregos na Alemanha. É uma posição claramente ligada aos interesses da indústria alemã e que contrasta com a abordagem da União Europeia para a redução de emissões, mas levanta uma questão cada vez mais importante: a velocidade da transição também tem consequências industriais.

Os grandes fabricantes também não estão imunes. A Volkswagen aprovou, no início de setembro, um novo plano que prevê a redução de 50.000 empregos até 2030, somando-se a outros 50.000 postos cuja redução já estava em andamento. O grupo reconhece ainda um excesso de capacidade produtiva de cerca de 500.000 unidades na Europa e colocou em dúvida o futuro das fábricas alemãs de Emden, Zwickau, Hannover e Neckarsulm no médio prazo.
O caso da Volkswagen é especialmente significativo porque algumas de suas fábricas já realizaram uma transformação completa em direção aos carros elétricos. A fábrica de Zwickau, por exemplo, parou de produzir veículos com motor a combustão em 2020 e atualmente fabrica modelos como o Volkswagen ID.3, ID.4 e ID.5, além do Audi Q4 e-tron e do Cupra Born. Apesar dessa reconversão, a unidade continua sendo afetada pelo excesso de capacidade que o grupo enfrenta.
A Porsche também aprovou outra redução significativa. A fabricante alemã cortará mais 5.000 empregos até 2035, principalmente por meio de aposentadorias, rotatividade natural e demissões voluntárias. Esse número se soma aos 3.900 postos já previstos em seu programa anterior, elevando o ajuste total para cerca de 9.000 empregos. Em troca, a Porsche concordou em manter a proteção dos empregos e de seus principais centros na Alemanha até 2035, além de investir 2,1 bilhões de euros em Zuffenhausen e Weissach.
A BMW, por sua vez, prepara a redução de até 8.000 vagas de trabalho na Alemanha antes do final de 2027, principalmente por meio de demissões voluntárias e rotatividade natural. Nesse caso, o ajuste concentra-se principalmente em cargos administrativos e de escritório, e não diretamente nos trabalhadores da produção.

O problema também não se limita à Alemanha. A Renault prevê eliminar cerca de 800 vagas de engenharia na França antes do final de 2027, como parte de um plano que visa reduzir entre 15% e 20% sua força de trabalho global em engenharia. Ao mesmo tempo, a fabricante francesa pretende contratar novos profissionais nas áreas de eletrificação, software e inteligência artificial, além de capacitar e realocar parte de seus funcionários. Provavelmente é um dos melhores exemplos do que está acontecendo: certos empregos desaparecem enquanto outros são criados, mas não necessariamente para as mesmas pessoas nem nas mesmas áreas.
A Jaguar Land Rover também anunciou a redução de cerca de 4.000 vagas nos próximos dois anos, no âmbito de um plano para diminuir custos em um contexto marcado pela queda nas vendas, pelos tarifas americanas e pelas dificuldades enfrentadas pela fabricante britânica. Os cortes se concentrarão principalmente em cargos administrativos, de gestão e de pesquisa e desenvolvimento, em vez dos trabalhadores das linhas de produção.
E aí surge um dos principais problemas da transformação europeia. A indústria não parte do zero: o setor automobilístico continua sendo um dos grandes pilares industriais do continente. A ACEA estima que o setor ofereça empregos diretos e indiretos para mais de 13 milhões de europeus e represente cerca de 10,3% dos empregos industriais da União Europeia.
O problema é que os novos investimentos não garantem que esses milhões de empregos possam ser mantidos nos mesmos locais. Uma fábrica dedicada durante décadas à produção de componentes para motores a combustão não pode se transformar da noite para o dia em uma fábrica de baterias, eletrônicos ou software. Também nem todos os trabalhadores conseguem passar diretamente de uma especialidade para outra sem formação adicional.
A CLEPA alerta ainda que os fornecedores europeus enfrentam uma desvantagem de custos entre 15% e 35% em comparação com as regiões com menores custos de produção. A associação estima que, se as tendências atuais continuarem, a Europa pode perder até 23% do valor agregado relacionado à fabricação de componentes automotivos até 2030, com os consequentes efeitos sobre o emprego.
A ACEA concorda que o problema vai muito além dos fabricantes de carros. A associação defende custos energéticos menores, menos complexidade regulatória, melhores infraestruturas de recarga e cadeias de suprimentos mais resistentes para baterias e matérias-primas. Na sua opinião, criar novos postos de trabalho não consiste simplesmente em substituir uma fábrica de motores por outra de baterias, especialmente se os novos investimentos acabarem sendo feitos fora da Europa.
A Europa se encontra, assim, diante de uma situação incômoda. A transição para carros elétricos continua avançando e a indústria está investindo bilhões para se adaptar, mas isso não significa automaticamente que os empregos perdidos durante o processo voltem a surgir no mesmo continente. Enquanto fabricantes e fornecedores europeus tentam reduzir custos para competir com a China e outros mercados, o risco é que uma parte cada vez maior da produção e dos novos investimentos acabe se deslocando para fora da Europa.
O dado dos 350.000 empregos em risco até 2030 não significa necessariamente que todos desaparecerão. Trata-se de uma estimativa da CLEPA baseada na continuidade das tendências atuais. Mas serve para medir a gravidade do problema: a Europa está em jogo não apenas no que diz respeito aos carros que fabricará nos próximos anos, mas também em relação a qual parte da indústria e dos empregos associados permanecerá dentro de suas fronteiras.