Voltar às notícias
Outros

30 países em 30 dias: como 15.000 quilômetros de carro elétrico derrubaram os últimos mitos sobre a mobilidade elétrica

30 países em 30 dias: como 15.000 quilômetros de carro elétrico derrubaram os últimos mitos sobre a mobilidade elétrica

30 países uniram a família

A ideia teve várias origens. Primeiro, faltava um plano de férias que unisse todos os membros da família. Segundo, crescia em mim a irritação com as descrições sensacionalistas de viagens de carro elétrico, das quais parte se assemelhava mais a uma caça ao alcance do que a uma viagem normal de carro. As redes sociais estão repletas de relatos sobre viagens de várias horas até as Mazórias, que esses autoproclamados celebridades do carro elétrico chamam de forma exagerada de expedições ou aventuras.

Em terceiro lugar, surgiu uma simples curiosidade. Já percorri quase dois milhões de quilômetros elétricos pelas estradas da Europa, mas as rotas concentravam-se principalmente em países que adotaram a mobilidade elétrica há anos. Desta vez, desejei uma perspectiva mais ampla. Há cada vez mais carros elétricos nas estradas de toda a Europa, e, com o aumento do número de pessoas convencidas pela mobilidade elétrica, voltam as mesmas perguntas de sempre: é realmente possível viajar de carro elétrico para a Croácia? Para a Itália? Para a Espanha? Ou talvez ainda mais longe?

Alguém precisava responder a elas de uma maneira definitivamente mais prática do que com outro teste em distâncias de centenas de quilômetros. Porque se pode discutir a mobilidade elétrica indefinidamente. Também é possível simplesmente entrar em um carro elétrico e percorrer todo o continente de ponta a ponta.

Não é um teste do carro. É um teste da Europa

A escolha do carro foi fácil. O Hyundai IONIQ 9, testado em várias viagens de teste, era perfeito para o propósito. É difícil encontrar no mercado um carro tão bom em comparação.

A rota era intransigente

Primeiro, uma travessia rápida e fácil para o oeste, até a costa do Atlântico. De lá, seguimos de maneira tranquila e pitoresca ao longo do Mar Mediterrâneo. Em seguida, uma parte um pouco mais técnica pelas Alpes. Depois, a etapa teoricamente mais exigente: pelos Balcãs até a Grécia, e retorno para o norte – pelas Carpatos, Europa Central e a costa do Mar Báltico, até a Lapônia. Por fim, a Escandinávia e o retorno à base na Holanda.

Tudo em um mês

Esse maratona foi uma oportunidade excelente para realizar o teste mais intenso da infraestrutura europeia de carregamento que se pode organizar sem precisar alugar um laboratório móvel. No entanto, não se tratava de verificar informações que podem ser encontradas em qualquer aplicativo. Potência do carregador? Número de postos? Velocidade máxima de carregamento? São dados genéricos. Muito mais interessantes são as perguntas às quais o aplicativo normalmente não responde:

Como é a sinalização das estações de carregamento em trinta países?

Como é o acesso a partir da estrada principal?

É fácil encontrar um carregador quando se visita um local pela primeira vez?

Como funciona esse tão elogiado roaming europeu?

O que geralmente se encontra nas imediações das estações de carregamento?

Há iluminação em todos os lugares?

A cobertura é um padrão comum?

É possível usar banheiro em todos os lugares?

Existe algum lugar para descartar lixo?

E, por fim: um ponto de carregamento parece fazer parte de uma infraestrutura moderna ou é apenas um poste colocado em algum lugar atrás do armazém, abandonado ao seu próprio destino?

Pois são justamente essas coisas que determinam se viajar de carro elétrico é prazeroso e confortável, ou apenas possível.

A Europa do volante, ou seja, trinta respostas às mesmas perguntas

Os primeiros dias da viagem trouxeram temperaturas acima de 40 graus. O calor verificou rapidamente parte das suposições iniciais.

O plano de utilizar amplamente o V2L e preparar refeições durante as paradas teve que ser limitado. Não era possível ficar do lado de fora, e os equipamentos de cozinha aquecidos não queriam esfriar. Era difícil colocar no porta-malas um torradeira que estava vermelha de calor.

A viagem por Schengen tornou-se um lembrete simbólico de quão muito a Europa mudou. Ainda não há tanto tempo, um percurso assim significaria dezenas de controles fronteiriços. Hoje é possível atravessar o continente praticamente sem paradas nas fronteiras.

A França exigiu desvios entre incêndios florestais e o percurso da Tour de France. Espanha e Portugal acrescentaram mais um pouco de calor insuportável. Andorra e Mônaco permitiram um descanso dos quilômetros e lembraram que se deve dirigir de carro para poder ver algo.

A travessia dos Alpes trouxe alívio do calor e permitiu testar o Hyundai IONIQ 9 em passagens de montanha sinuosas. O carro precisou provar aqui que é capaz não apenas de percorrer quilômetros com conforto, mas também de fazer curvas.

A Itália e os Balcãs são um festival culinário combinado com uma abordagem bastante relaxada dos motoristas em relação às regras de trânsito. A Bulgária e a Grécia, por sua vez, mostraram que o nível europeu de infraestrutura ainda não chegou a todos os lugares.

A Europa Central – da Romênia à Polônia – trouxe seus climas acolhedores, novas estradas, hospitalidade e um clima de férias relaxado. Os países bálticos surpreenderam pela diversidade. A Finlândia e a Escandinávia, por sua vez, confirmaram seu status de paraíso para viajantes.

A Alemanha e a Holanda mimaram os motoristas com sua cultura, suas estradas e uma infraestrutura avançada para veículos elétricos.

Logística, ou seja, aquela parte da viagem que não se vê no Instagram

A ideia para o 30/30 EV Challenge surgiu dois meses antes da partida. Portanto, não houve tempo para campanhas promocionais. Era preciso definir os detalhes, escolher a rota, reservar hospedagens, encontrar parceiros, envolver a mídia, estabelecer o orçamento… ou ignorar tudo isso e improvisar.

Nós não perdemos tempo planejando. A família aceitou total espontaneidade. Os parceiros surgiram praticamente sozinhos, quando a primeira expedição desse formato se tornou conhecida no meio dos veículos elétricos. O impossível ficou um pouco menos impossível. A seguradora calculou as chances de sucesso em 2%. Para a família, isso foi um sinal verde claro. A decisão foi tomada.

Uma viagem mensal sem preparações antecipadas exigia logística diária. Moedas diferentes, idiomas, regulamentos, condições das estradas, feriados nacionais, domingos de feira fechada, eventos esportivos e de entretenimento, reformas, além da situação prevista ao longo do percurso por trinta países.

O planejamento contínuo era bem elaborado, mas a realidade, como de costume, tinha seu próprio plano…

O calor tropical, tempestades, trocas de hotéis ou rotas fechadas por incêndios florestais forçavam improvisação constante. Até a data de início da viagem precisava levar em conta eventos que poderiam paralisar trechos específicos do percurso.

Em trinta países, qualquer pequeno erro desencadeia uma avalanche de consequências. Efeito dominó. Uma estrada fechada significa mudança de rota. Mudança de rota significa outro carregador. Outro carregador significa alteração no tempo de viagem. E a alteração no tempo de viagem pode virar do avesso todo o planejamento do dia.

No final, três fatores determinaram o sucesso: uma preparação logística muito flexível, a experiência da equipe e a maturidade técnica do carro elétrico moderno.

A carregadora não é tudo

O elemento mais interessante de todo o empreendimento foi a infraestrutura.

Apos 15.000 quilômetros, já se pode dizer que a simples existência de uma carregadora deixou de ser um problema. O problema continua sendo sua qualidade e a conveniência no uso.

Em alguns locais, o motorista encontra uma estação bem sinalizada, com número adequado de postos, teto, iluminação, restaurante, loja e banheiro.

Em outros, ele encontra apenas um poste, asfalto e um pouco de esperança.

Por esse motivo, a equipe descartou os Superchargers da Tesla.

A diferença entre as carregadoras dos diferentes operadores pode ser enorme, mas mesmo dentro da mesma rede existem estações extremamente distintas.

É extremamente interessante ver quão rapidamente o mercado europeu está mudando. Em cada vez mais lugares, a carregador deixa de ser um dispositivo isolado em algum ponto ao longo da estrada. Torna-se parte de um ecossistema maior de serviços.

Isto também se aplica a hotéis e restaurantes. A possibilidade de carregar o carro durante a estadia ou refeição está cada vez mais sendo simplesmente mais um serviço, e não uma atração divulgada em letras garrafais. Mateusz e sua família valorizaram muito isso. Carregar o carro enquanto se realizam outras atividades tornou-se o padrão dessa viagem.

É exatamente nessa direção que haverá uma importância enorme para o desenvolvimento futuro da mobilidade elétrica. O motorista não quer “ir carregar o carro”. Isso é um hábito da era dos veículos a combustão. Hoje, ele quer chegar ao destino, almoçar, fazer compras ou passar a noite – e que o carro se carregue ao mesmo tempo. A economia de tempo é significativa nesse caso, e em uma viagem de trinta dias isso representa uma diferença enorme. Se cada um dos 50 carregamentos levasse 10 minutos, como ao abastecer, Mateusz e sua família perderiam quase um dia inteiro...

O roaming deixou de ser algo curioso

Um dos maiores pontos positivos da viagem foi a interoperabilidade.

Apenas alguns anos atrás, uma viagem pela Europa de carro elétrico muitas vezes significava um celular cheio de aplicativos e a necessidade de memorizar qual operadora funcionava e qual não funcionava em determinado país. Ou então, um apego muito incômodo a uma única operadora.

Hoje a situação parece claramente melhor. O roaming e os sistemas universais de acesso simplificaram significativamente a vida dos motoristas. Do ponto de vista do usuário, torna-se cada vez menos importante quem é fisicamente o proprietário de um determinado carregador. O que importa muito mais é se é possível utilizá-lo simplesmente com um único cartão.

Pode parecer banal, mas são justamente essas coisas que determinam se a tecnologia sai do círculo dos entusiastas e começa a funcionar para os usuários comuns. Embora, claro, isso também alegre imensamente os entusiastas.

A melhor parte da mobilidade elétrica é a comunidade

A comunidade europeia de veículos elétricos também contribuiu para o sucesso da expedição.

O patrocínio do projeto ficou a cargo da GEVA (Global EV Alliance), e em outros países clubes e grupos locais de motoristas de carros elétricos se juntaram para apoiar a expedição.

Desde o início, ainda na fase de planejamento inicial do desafio, a reação da comunidade de mobilidade elétrica foi muito positiva. O projeto encantou quase todos, embora muitos considerassem 30 dias em um carro elétrico com a família algo inviável. Entusiastas da mobilidade elétrica de toda a Europa convidavam Mateus e sua família para tomar café, almoçar ou simplesmente se encontrar. Às vezes, eles também ajudavam da maneira mais prática – disponibilizando suas próprias carregadoras. O lado positivo da popularidade.

Um dos maiores fãs da expedição forneceu aos viajantes hospedagem e entretenimento o dia todo.

A comunidade de motoristas de veículos elétricos demonstrou mais uma vez que consegue se integrar mais rapidamente do que muitos sistemas oficiais de roaming.

E talvez isso também faça parte importante da transformação no transporte. A nova tecnologia não se baseia apenas em equipamentos; ela também depende das pessoas que desejam utilizá-la, promovê-la e ajudar os outros.

Resumo de 30 dias

Distância: quase 15.000 km

Média: cerca de 500 km por dia

Tempo ao volante: mais de 200 horas

Média: cerca de 7 horas por dia

Energia: quase 3.000 kWh

Sessões de carregamento: 55

Consumo médio: 20–22 kWh/100 km

Velocidade média de viagem: cerca de 70 km/h

Esses não são valores do catálogo do fabricante.

Esse é o resultado de uma viagem familiar de carro elétrico por trinta países, em condições normais de estrada, com bagagem, passageiros, calor, chuva, montanhas, desvios e tudo o que normalmente acontece durante uma expedição de um mês.

É realmente possível viajar longe com um carro elétrico?

Depois de 15.000 quilômetros, a resposta é óbvia: sim. Mas a viagem familiar mostrou algo ainda mais importante.

A maior mudança não ocorreu nos próprios carros. Mudou todo o ecossistema ao redor deles.

A infraestrutura está cada vez mais desenvolvida. O roaming facilita o acesso à recarga. Hotéis e restaurantes começam a considerar a recarga como um elemento normal de sua oferta. As estações menores e locais conseguem cada vez mais competir com as grandes estações localizadas nas rodovias.

É claro que ainda existem enormes diferenças entre os diferentes países. Não faz sentido fingir que o conforto de viajar na Holanda e no sul da Europa é idêntico. Não é.

Há lugares onde a infraestrutura funciona de forma exemplar, mas também há outros onde se começa a questionar se o carregador foi colocado para os motoristas ou simplesmente porque alguém tinha um pouco de cabo sobrando.

Quão rápido as regiões menos desenvolvidas alcançarão os melhores? Essa é uma discussão completamente diferente.

Mas a diferença é fundamental.

Há alguns anos, a pergunta era: é possível atravessar a Europa de carro elétrico? Hoje, quem propõe a ideia pergunta: “Por que você ainda não fez isso?”.

30 países depois

30 países, 30 dias e quase 15.000 quilômetros foram suficientes para deixar de tratar uma viagem de longa distância de carro elétrico como um experimento.

Não é perfeito. Nem em todos os lugares é confortável. Nem todo estacionamento parece aqueles dos catálogos, e nem toda estrada leva exatamente para onde indica o navegador.

Os viajantes perceberam que, mesmo com as imperfeições da infraestrutura, o carregamento não se tornou um problema, e quase todas as viagens foram feitas com um único cartão GreenWay polonês.

E o carro elétrico simplesmente fez o que deveria fazer.

Com uma família de quatro pessoas a bordo, percorreu a Europa.

Sem tratamento especial. Sem escolta de reboque. Sem precisar levar gerador no reboque e sem ter que passar metade das férias procurando por um carregador.

E um dos mitos mais antigos sobre a mobilidade elétrica começa hoje a soar excepcionalmente arcaico:

“Afinal, com eletricidade não se pode ir longe.”

É possível. E até bem longe.

Mateusz Maćkowski, EV Klub Polska